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sábado, 14 de agosto de 2010

● O Rito (1969)



Uma das películas que mais tive dificuldade de formular uma opinião. Não sei se é porque esperava algo a mais. Visto o ano de produção deste filme, faria até mais sentido se fosse feito por um brasileiro, já que a censura é fortemente criticada.

Há características que dão sentido maior ao filme se você for um pouco conhecedor das peculiaridades de Bergman; não que isso atrapalhe a compreensão da obra, mas ajuda a entendê-la mais.




A sinopse é bem básica, mas vamos lá: um trio que enfrenta julgamentos de um juiz que os acusa de uma peça obscena apresentada por eles, sofre por uma tremenda tortura psicológica, não só feita pelo juiz, mas por eles mesmos também; o filme é narrado de forma não-linear e fragmentada (o que particularmente é inédito pra mim nas mãos desse diretor, mas ainda não sei se adiante será algo que será usado mais comumente na sua filmografia).

Não há o que comentar; conflitos psicológicos ao extremo, os sentimentos de dor, pena, solidão já trabalhada antes... Nada de muito inédito. Esse doi informar que é um mais do mesmo.


(Primeira foto se passa na metade do filme; a segunda, já no final. Maneira como Bergman utilizou para descrever sutilmente quem dominava a situação naquele momento)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

● Saraband (2003)

Último filme da carreira de Bergman e um epílogo para Cenas de um Casamento.

Após 30 anos, o casal Marianne e Johan se reencontra.

Vale comentar que não só na ficção, como na realidade, a história acontece 30 anos depois (Cenas de um Casamento, 1973 e Saraband, 2003).

Achei que Saraband seria semelhante ao Antes do Amanhecer (1994) e Antes do Pôr-do-Sol (2004) do Richard Linklater. No primeiro, o casal se conhece num trem, se diverte em uma noite em Londres e depois precisa partir e cada um seguir o seu rumo; no segundo, dez anos depois, o reencontro. Há toda aquela formalidade na primeira metade do segundo filme, mas com o passar do tempo, vai ganhando ritmo e o casal vai se abrindo e há aquela jogada de diálogos intensos, até beirar a um final aberto e inesperado.

No caso de Saraband foi bem diferente. Os diálogos de maior intensidade entre Johan e Marianne acontecem apenas no começo e no fim do filme. Ambos já estão velhos; entre alguns sarcasmos de Marianne e atitudes hostis de Johan, encontramos um casal mais maduro, com menos pretensão de discutir o fracasso que foram os seus respectivos casamentos.

Grande parte do filme é voltada a Henrik, filho de Johan. O passado entre pai e filho aos poucos vêm à tona; nesta confusão, entra Karin, filha de Henrik, que tem passado problemas com seu pai. De princípio achei que isso não poderia ser o foco que esperava em Saraband e que o filme se derraparia pra um final desastroso, mal resolvido e desconexo. Ainda bem que me enganei.

Não costumo tratar de termos técnicos nos meus comentários de filmes, mas é indispensável eu falar da atuação de Börje Ahlstedt (o Henrik). Suas cenas foram de longe as melhores.

Bergman utiliza de Saraband para dar um adeus a sua carreira brilhante em detalhes sutis ao mesmo tempo em que a trama se desenrola; mais uma vez vemos o nome Karin em alguma de sua personagem; mais uma vez Liv Ullmann no elenco; o tema da velhice presente; cores fortes -que é impossível não lembrar de Gritos e Sussurros (de sua autoria); a presença da música clássica de Bach; a própria reutililização de objetos que lembram momentos de Cenas de um Casamento; relacionamentos incestuosos; o medo da morte.

Ainda estou caminhando na “maratona Bergman”, mas creio que quando eu tiver assistido grande parte de sua filmografia e for rever Saraband, encontrarei elementos que deixei passar despercebido (e voltarei aqui para acrescentá-los).

Bergman se despediu com grande estilo. Adoro autorreferência (esse tipo de coisa que os grandes diretores costumavam fazer). Considero Saraband algo mais além que uma mera continuação de Cenas de um Casamento: é um presente aos fãs de Ingmar Bergman.

● Através de um Espelho (1961)


Primeira parte da Trilogia do Silêncio ou Trilogia da Fé.



O filme conta a história de Karin, que resolve passar as férias numa ilha isolada com seu pai, seu irmão e seu marido.

Karin é a chave central do filme; através dela toda a trama se desenrola. O pai, um escritor egoísta que largou a família para se dedicar à arte; gosta de escrever temáticas que questionam a existência de Deus, apesar de as vezes não saber ao certo em que acreditar. O marido, um cético que a ama e tenta resgatar Karin de um vazio em que ela mesmo se afogou. O irmão, também carente de atenção do pai, faz de tudo pra chamar a atenção; apesar de aparentemente ser um sóbrio, é com os delírios de sua irmã que ele mais percebe a realidade que o cerca.

A depressão de Karin é tão intensa, que para cada um ela gerou um sentimento específico: ao pai, o ódio; o marido, a repulsa sexual; o irmão, o amor. Amor este que em uma cena específica fica subentendido as tentativas de Karin em tentar uma relação incestuosa.

E, por este filme fazer parte de dois rótulos importantes, A Trilogia do Silêncio se dá ao fato do sofrimento interno, a incompreensão, e a Trilogia da Fé aos constantes questionamentos da existência de Deus (e, para Karin, suas aparições misteriosas).

E é nessas aparições que as últimas cenas do filme se desenrola, por fim, após o surgimento de Deus perante à Karin, ao pai e ao marido.

Em contrapartida, na última cena, vemos um diálogo de pai e filho mais otimista sobre a existência do Divino.

terça-feira, 6 de julho de 2010

● A Infância de Ivan (1961)

Primeiro longa-metragem de Tarkovsky.


O filme conta a história de um menino que após perder a mãe e vivenciar momentos de terror no cenário da Segunda Guerra, decide lutar contra àqueles que fizeram da vida de sua nação um inferno.

A bravura e a frieza de Ivan, de apenas doze anos, consegue provocar sentimentos paternos em patentes do exército sobre o garoto. Estes querem retrair toda essa ira do pobre menino e dar a ele um pouco melhor de conforto, querendo interná-lo em orfanatos ou colégio militar, enquanto aquele, tão pequeno e frágil, demonstra crueldade e coragem para se arriscar em missões suicidas.


Numa determinada cena, a discussão de Ivan com um soldado em que ele explica que só quer lutar pelo seu país, pois enquanto pessoas morrem na guerra, os alunos dos internatos perdem tempo estudando sobre animais herbívoros.

Não é o filme mais profundo do Tarkovsky, mas como foi o primeiro de sua carreira, vale a pena conferí-lo. Pode-se notar nesse filme também detalhes que mais na frente irão se tornar marcas fortes do diretor: os fragmentos de sonhos e pesadelos.


Segundo uma curiosidade que li, esse filme foi considerado por Sartre como exemplar de "surrealismo socialista".

domingo, 4 de julho de 2010

● Cenas de um Casamento (1973)

São cinco horas de filme, divido em seis capítulos;

Grande parte do tempo são apenas dois atores dialogando;

Quase não há mudança de cenário;

E dos filmes de Bergman que vi, esse sem dúvida é o mais primoroso.



Quando soube desse filme e de sua duração, comecei a cogitar a possibilidade de talvez sua narrativa se estender de forma lenta. Engano. Já tinha visto filmes anteriores de Bergman e definitivamente sua característica não é estender-se muito. Com este não foi exceção.

Quando cada episódio acabava, via-se porque foi preciso de tanto tempo para filmá-lo. Foi quando a ficha caiu que o filme era voltado ao Casamento, e um estudo muito aprofundado neste havia sido realizado.

O filme foca a rotina de um casal que estão juntos há dez anos e aos poucos começam a nos mostrar conflitos que se estenderam por todos esses anos de matrimônio. E é a partir do primeiro episódio, após presenciarem a cena de uma briga de casal que discutem acabar com o casamento, que pode perceber-se o início do conflito psicológico gerado nos protagonistas.

Se nos tempo de hoje um filme desse porte causa um impacto a quem vê, imagine em 1973 (cheguei a ler uma curiosidade em que após a exibição desse filme na Suécia, país de origem do diretor, houve um considerável aumento no número de divórcio).

Sem dúvida a questão mais bem detalhada foi a infidelidade. "Por que há traição no casamento?". A lição que aprendemos após o término deste filme é que o ser humano não sabe conviver com a idéia do “para sempre”, e isto fica bem claro no final quando a personagem de Ullmann nos revela que ficou assustada quando se casou e dali em diante toda sua vida estaria fadada psicologicamente e sexualmente àquele homem.

Poderia entrar em milhões de detalhes, estender-me em infinitas linhas, mas a interpretação desse filme soa pessoal demais, e vale dizer que Cenas de um Casamento não é um tapa na cara somente dos casados, mas de toda uma sociedade que é voltada a um egoísmo quando se trata de amor.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

● Filmografia de Bergman


INGMAR BERGMAN

(14/07/1918 - 30/07/2007)

"O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". (Jean-Luc Godard, "Bergmanorama", Cahiers du cinéma, Julho – 1958).


1945 - "Crise"
1946 - "Chove Sobre Nosso Amor".
1947 - "Um Barco para a Índia"
1947 - "Música na Noite"
1948 - "Porto e "Prisão"
1949 - "Sede de Paixões"
1949 - "Rumo à Alegria"
1950 - "Isto Não Aconteceria Aqui"
1951 - "Juventude"
1952 - "Quando as Mulheres Esperam"
1952 - "Mônica e o Desejo"
1953 - "Noite de Circo"
1954 - "Uma Lição de Amor"
1955 - "Sonhos de Mulheres" e "Sorrisos de uma noite de amor"
1956 - "O Sétimo Selo".
1957 - "Morangos Silvestres"
1957 - O Sr. Sleeman Está Chegando (TV)
1958 - O Veneziano (TV)
1958 - "No Limiar da Vida" e "O Rosto"
1958 - Rabinos (TV)
1959 - "A Fonte da Donzela"
1960 - "O Olho do Diabo"
1960 - A Tempestade (TV)
1962 - "Luz de Inverno"
1963 - "O Silêncio"
1963 - "Uma Comédia do Sonho" (TV)
1964 - "Para Não Falar de Todas Essas Mulheres"
1965 - "Don Juan"
1966 - "Quando Duas Mulheres Pecam"
1968 - "A Hora do Lobo", "Vergonha" e "Daniel" (episódio do longa "Stimulantia")
1969 - "O Rito" (TV), "Paixão de Ana" e "Farö - Documentário 1969" (TV)
1971 - "A Hora do Amor"
1972 - "Gritos e Sussurros"
1974 - "A Flauta Mágica" (TV)
1974 - O Misantropo (TV)
1975 - "Face a Face"
1977 - "O Ovo da Serpente"
1978 - "Sonata de Outono"
1979 - Farö Documentário - 1979 (TV)
1980 - "Da Vida das Marionetes"
1983 - "Fanny e Alexander"
1983 - "Hustruskolan" (TV)
1984 - "Depois do Ensaio" (TV)
1984 - "O Rosto de Karin"
1986 - "A filmagem de Fanny e Alexander" (TV)
1986 - "A Dupla Feliz" (TV)
1992 - "O Marquês de Sade" (TV)
1993 - "Backanterna" (TV)
1995 - "O Último Soluço" (TV)
1997 - "Na Presença de um Palhaço" (TV)
2000 - "Bildmakarna" (TV)
2003 - "Saraband"


Maratona sim! Pretendo ver o que tiver disponível dele.